O silêncio me seguia ao subir as escadas, num passo macio, degrau por degrau sem fazer ruído, me preocupando para explicar o que ia fazer ali. Ah, se pudesse voltar sem nenhuma palavra, sem nenhuma explicação. Ela também não diria nada, como se eu tivesse ido comprar cigarros.
- Catharina? – Bati de leve e fui entrando.
- Está sozinha?
Fiquei ainda um instante parada diante da porta do quarto, sem saber mesmo o que fazer, juro que não tomei logo a decisão, ela provavelmente esperava, e eu parada como besta.
Naquela improvisação do momento, o tempo perdeu a medida e eu já não era capaz de lembrar quando exatamente foi que conheci Catharina. Só sabia que sua beleza no início me impressionava, e depois seus gostos e suas ideologias. Com a mão na maçaneta não pude deixar de sentir um certo desespero. Fui recuando de costas, mas de repente não aguentei e devagar me pus a empurrar a porta. Foi quanto, então, vi sua sombra, e um tremor gélido pairou em meu corpo.
Não sei quanto tempo fiquei parada no meio do quarto sem fazer coisa alguma, primeiramente olhando pra ela. Ela estava segurando um livro, sentada na cama, de camisa, me olhando sem dizer palavra alguma. Não parecia espantada nem nada, só me olhava.
Procurei os cigarros só para fazer alguma coisa. Que situação. Se ela tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquele silêncio entre nós e aquela bruta calma em seu semblante me fazia perder o controle. Ela então abaixou os grandes olhos negros.
–Estava lendo. ..
- Victor Hugo? – Fechou o livro e não pode deixar de sorrir. Ai então, discutimos um pouco sobre o livro, os personagens, o enredo, o autor. Mas o prazer de vê-la era tão grande que me sentia compassada quando ouvia sua voz calma, harmoniosa com os seus gestos.
Pergunta do que eu fazia ali não veio, com certeza já sabia mais do que eu esperava, e deve ter reconhecido de sobra aquela antiga expressão que eu trazia toda vez quando tinha algo a esconder ou a contar.
- Queria lembrar uma passagem do livro... – Ela continuo colocando o livro sobra à cama e se pôs de pé na minha frente.
- Só que está tão frio... Vou fazer um café. Você aceita?
- Ah sim, claro!
Aproximei- me da janela. O sopro do vento era ardente. Mesmo assim o quarto continuava sendo o lugar menos frio da casa. E continuava o mesmo, como outrora, com suas paredes forradas de posteres, micas, papeis de propaganda, e com os retratos da Greta Garbo, Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor e Vivien Leigh, que nós mesmas pregamos. Tínhamos uma paixão por Greta Garbo, e diante do seu retrato não tinha forças nem para acender o cigarro, relembrava da primeira vez que assistimos juntas Grande Hotel, A dama das camélias e A carne do diabo.
- Aqui está, pronto! – Despejava o café fervendo na caneca.
- Essas canecas continuam sendo as sua preferidas, não? – Teve uma expressão de resignado bom humor.
- Sim, e ainda ficam na prateleira do armário do canto, lembra?
- Como haveria de me esquecer... – Nos fitamos por um segundo tão prolongado que podia sentir meu coração disparado no peito. Tomei de um só trago o café amargo.
Confesso que durante muito tempo não sabia se pensava mais em ir embora, ou no que iria perder se não enfrentasse meus próprios sentimentos.
- Seu novo romance? – Perguntei na maior excitação ao encontrar em cima da mesa o rascunho. Tinha um gosto enorme por todas as coisas que ela escrevia.
- Sim, mas ainda estou pra terminar, essa historia tem sido a mais trabalhosa pra mim, difícil de encontrar um final descente pra ela. Se soubesse teria feito uma fantasia ou algo mais leve. -
Ao perguntar do que se tratava a história, ela me fitou nos olhos e disse que não poderia contar enquanto não colocasse o fim. Mas me garantiu que a historia não seria nenhuma surpresa e que era por demais conhecida por mim.
Conversamos um pouco, contamos de nossas novas vidas e do rumo que ambas tinham acabado tomando com o tempo. Nem eu, nem ela ousávamos dizer coisa alguma que remetesse ao passado, como um pacto de não tocar mais no assunto.
- Você no retrato parece um pouco diferente... Mais nova, mas não me lembro dessa fotografia de quando ainda mora... - A frase subitamente foi interrompida pela metade, era como se resgatasse todo um passado do qual não conseguia ficar sem me recordar.
- Enquanto ainda morávamos juntas? - Completou-a de uma forma tão doce e sutil que me fez quase os olhos encher de lágrimas. Comecei a ficar irritadíssima, inquieta, era como se tivesse medo de assumir a responsabilidade de tamanho amor. Porém sabia que primeiro era preciso dizer a mim mesma como foi possível acontecer o que aconteceu. Passei a mão na nuca, como quando fazia se não sabia o que fazer ou se tivesse feito algo errado. Meus olhos foram em um demorado encontro com os dela, e eles naquele momento já não eram calmos e tranquilos, estavam inquietos e ansiosos.
- “Meu deus!”
- O que foi Sofia? - Perguntou ela em meio aquela pausa. Mas já não adiantava tentar esconder, sabíamos nitidamente o que se passava no interior da outra.
- Você está tão linda.
- Eu, linda? – Ela sorria, e sempre negava com aquela mesma expressão que fez a última vez em que lhe disse isso. Ela então abaixou a cabeça e olhou para o outro lado.
- Sofia... você demorou tanto pra reaparecer... Cheguei até em pensar que aquele seria mesmo o nosso fim.
- Não, absolutamente! Mas de certo precisávamos de um tempo longe uma da outra, pra que pudéssemos mudar, amadurecer, entender melhor as circunstâncias.
- Ah Sofia, eu precisava tanto te ver, entende? A última vez foi tão horrível, me arrependi tanto das coisas que falei... Queria pelo menos poder ter uma despedia mais digna. – A interrompi tomando-a pela mão.
- Não pense nisso, Catharina, que bobagem. Hoje temos uma noção bem mais sensata dos fatos... E sabemos que ambas erraram bastante. – O gesto foi discreto, mas no rápido abrir e fechar dos dedos havia um certo desespero.
- Acho que jamais nos entenderemos...
- Nossa vida foi tão maravilhosamente livre! E tão cheia de amor, rimos e choramos nesse terceiro andar, cercadas por gravuras e retratos de Greta Garbo, Elizabeth Taylor... – Ela tirou a mão e alisou os cabelos num gesto contido. Num quase afago, ela deixou pender o braço que lhe contornava o ombro e me envolveu em um apertado abraço. Mordisquei o lábio devagarinho, bem devagarinho até a dor ficar insuportável.
- Ah Sofia, eu te amo tanto... - Nessa altura eu estava tão desfibrada, que havia de chorar lágrimas de enternecimento quando a vi colocar na minha mão o cigarro que pensei em ir buscar.
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