domingo, 26 de dezembro de 2010

Há um medo de eu me tornar a cada dia uma pessoa mais enrugada. E não esteticamente, é o medo de perder a juventude do viver. Digo isso por sentir estar perdendo a capacidade de ver a beleza nos detalhes, de acreditar no amor, de poder sonhar, que sempre foi mais que apenas desejar. Hoje o azul dos dias ensolarados é quase sempre acinzentado, só que existe o suor. E também, o incomodo, o coração no peito apertado, a paciência quase a acabar. É a falta de gosto, o mês que passou mastigado e vomitado, é a perda das cores, do brilho, de mim. É o choro travado, e tantas vezes desesperado, a ânsia de grito, de gemido, do apelo, é as madrugadas perturbadas, a palavra de Caio num texto sem final feliz. O café que sempre está ralo, e o cigarro que acaba rápido. A culpa, você vê as feridas que ainda estão abertas e que talvez você mesma tenha escolhido isso, a dor que ainda lateja, mas dês de o principio soube que seria assim: difícil. Afinal nada é fácil, ainda mais se as arestas pelas quais se olha estiverem afiadas. E ai você se vira contra o mundo, o enxerga ainda mais podre, ainda mais medíocre, e hipócrita. Pior de tudo é quando se vê também assim. E se sente exausta, incapaz, já não passa de uma mulher que perdeu seu encanto dentro de si, e que se fechou e machucou. Alguém que encontra válvulas de escape nem sempre precisas. Mas alguém que se olhou no espelho hoje pela manhã, e que o reflexo perguntou se era triste. Talvez fosse, mas sabia que era mais um de meus personagens mortos. E a assim atriz, deixo o rosto se reinventar.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

APELO

Um desenho
Uma imagem
Um retrato
Um sorriso
Um quadro
Uma aquarela
Qualquer coisa
Tudo enfim

Uma flor
Um beija-flor
Um sabor
Um odor
Um olhar
Um sorriso
Qualquer coisa
Tudo enfim

Uma carta
Um bilhete
Um rascunho
Um rabisco
Um traço
Um risco
Qualquer coisa
Tudo enfim

Tudo enfim
Qualquer coisa
Pense em mim
Um tiquinho
Assim!

domingo, 29 de agosto de 2010

Contemplação estéril e longínqua.

Todas as noites, como de costume, colocava um blues, sentava na mesma velha poltrona da sala e acendia seu ultimo cigarro do dia. O sono batia, ela cochilava, e pela madrugada acordava, virava o lado do disco, caminhava até o quarto e ficava esperando cair novamente no sono. Tão abstrata parecia sua idéia de ser obstinada a algo. Como não encontrar nem mesmo contentamento, outros teriam até gozo, e quem sabe, amor. Mas, em uma noite qualquer, parecia estar incomodada, algo lhe perturbava os pensamentos, foi para o quarto e não conseguiu mais dormir. O que lhe doía naquele momento era confundir lembrança com saudade, ora relembrava momentos vividos, e isso não significava que sentia falta deles, ora lembrava com tanto carinho, apego e até um afeto, que lhe tocava forte, ai talvez fosse saudade, e não gostou, pois lhe formava um vazio tão fundo e tão frio, que preferia esquecer e ser mesmo sozinha. Pedia ao coração que sossegasse, não desesperasse pela confusão, acendeu outro cigarro e pensava que mesmo sem final, aquilo tinha, sim, um fim. Só não sabia qual era o sentimento, e isso a afligia. Pouco a pouco, da angústia de se própria, foi deixando de pensar. Era quase manhã quando adormeceu, e chegou até a sonhar. No sonho, contava um segredo, que não lembrava o que era, mas alguma coisa mudara, estava obstinada a fazer alguma coisa.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Não quero um retorno; quis, um dia, uma ida.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.

(Silêncio)

-Você gosta de Júpiter?
-Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra".
-Que é isso?
-Um poema de um menino que vai morrer.
-Como é que você sabe?
-Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.

(Silêncio)

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Silêncio)

-Como é que você sabe?
-O quê?
-Que o menino vai se matar.
-Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
-Eu não sei nada.
-Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
-Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
-Ninguém compreende.
-Às vezes sim. Eu te ensino.
-Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também.
-Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?

(Silêncio)

-Você tomou alguma coisa?
-O quê?
-Cocaína, morfina, codeína, mescalina, heroína, estenamina, psilocibina, metedrina.
-Não tomei nada. Não tomo mais nada.
-Nem eu. Já tomei tudo.
-Tudo?
-Cogumelos têm parte com o diabo.
-O ópio aperfeiçoa o real
-Agora quero ficar limpa. De corpo, de alma. Não quero sair do corpo.

(Silêncio)

-Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos.
-Minha trança chegava até a cintura. As pulseiras cobriam os braços.
-Alguma coisa se perdeu.
-Onde fomos? Onde ficamos?
-Alguma coisa se encontrou.
-E aqueles guizos?
-E aquelas fitas?
-O sol já foi embora.
-A estrada escureceu.
-Mas navegamos.
-Sim. Onde está o Norte?
-Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.

(Silêncio)

-Você é de Virgem?
-Sou. E você, de Capricórnio?
-Sou. Eu sabia.
-Eu sabia também.
-Combinamos: terra.
-Sim. Combinamos.

(Silêncio)

-Amanhã vou embora para Paris.
-Amanhã vou embora para Natal.
-Eu te mando um cartão de lá.
-Eu te mando um cartão de lá.
-No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
-No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.

(Silêncio)

-Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada do meu lado, olhando de perfil.
-Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
-Vamos nos ver?
-No teu chá. No meu chá.

(Silêncio)

-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Silêncio)

-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
-Natural é encontrar. Natural é perder.
-Linhas paralelas se encontram no infinito.
-O infinito não acaba. O infinito é nunca.
-Ou sempre.

(Silêncio)

-Tudo isso é muito abstrato. Está tocando "Kiss, kiss, kiss". Por que você não me convida para dormirmos juntos.
-Você quer dormir comigo?
-Não.
-Porque não é preciso?
-Porque não é preciso.

(Silêncio)

-Me beija.
-Te beijo.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Caio e um pouco mais de vinho, por amor.


Saibas do inevitável,
Do excesso de cigarros,
E qualquer coisa como um leve tremor,
Que, esperas,
Não transparecerás em suas palavras,
Mas dirás assim,
Como você sabe,
A gente, as pessoas têm,
Temos, essas coisas, as emoções,
Mas te deténs, infelizmente?
Talvez perguntasse por que infelizmente?
Então, dirias rápido,
Qualquer coisa, como seria tão bom,
Se pudéssemos provar desse imenso amor,
Para não te desviares demasiado do que estabelece,
Há os níveis não formulados,
Expectativas que quase nunca se cumprem,
E, sobretudo, como dizias, emoções,
Que nem se mostram,
Por tudo isso, infelizmente,
E repetiria, insistiria completamente desesperada,
Talvez dirás, então, descontrolada,
Porque meu silêncio já não é uma omissão,
Mas uma mentira,
Que talvez precisasse fazer alguma coisa,
Mas talvez não faças nada,
Talvez você acenda mais um cigarro,
E com a seca boca cerrada de nenhum sorriso,
Talvez desista desse amor,
Mas neste silêncio,
Talvez seu coração bata com força,
Sem que ninguém escute,
E por um momento talvez imagines,
Que poderias simplesmente tocá-lo,
Como se assim conseguisse produzir,
Uma espécie qualquer de encantamento,
Enquanto dentro de ti, descobrirás,
Que me faço quase tangível,
E novamente encherás o cálice,
Com um pouco mais de vinho,
Para que o líquido,
Descendo por tua garganta trêmula,
A leve ao encontro do que sentes,
Precariamente, transformado em palavras,
Que agora pressinto o nada,
Que tu mesmo pregarias, suicida,
Através de silêncios mal tecidos,
E palavras inábeis,
Te feres, exigindo, enxugar a dor,
Mas completamente independente,
De tua vontade, não é fácil fingir,
Que nunca houve emoção,
Que não desejei tocá-la,
E que aqui ainda não lateje,
Desejarias que depositasse o cálice,
Apagasse o cigarro e que estendesse as duas mãos,
Em direção ao rosto que se quer te olha,
Desejarias desvendar palmo a palmo esse corpo,
Que há tanto tempo supõe,
Subliterário e impudico,
E desejar assim, como todos os lugares-comuns,
Do desejo, a esse outro tão íntimo,
Que às vezes julgo desnecessário dizer alguma coisa,
Muito mais sobre o amor,
Ou qualquer forma tortuosa da paixão,
Porque nada sabe de seu poder,
E nesse exato momento poderias escolher,
Entre torná-la ciente de que dependes disso,
Para que te ilumines ou que escureça assim,
Intensamente.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Bebia o café em tragos fortes,
e fumava o cigarro que queimava sem pudor das cinzas,
em goles amargos.
Dias difíceis.
Dias em que eu queria ser tão paciente
quanto transpareço ser.
Mas tudo bem.
Tudo, não!
Tudo é muita coisa,
meio bem, meio assim...
Estou normal.

É não mais inventar paixões,
deixar que aconteça pra que só assim exista.