domingo, 26 de dezembro de 2010

Há um medo de eu me tornar a cada dia uma pessoa mais enrugada. E não esteticamente, é o medo de perder a juventude do viver. Digo isso por sentir estar perdendo a capacidade de ver a beleza nos detalhes, de acreditar no amor, de poder sonhar, que sempre foi mais que apenas desejar. Hoje o azul dos dias ensolarados é quase sempre acinzentado, só que existe o suor. E também, o incomodo, o coração no peito apertado, a paciência quase a acabar. É a falta de gosto, o mês que passou mastigado e vomitado, é a perda das cores, do brilho, de mim. É o choro travado, e tantas vezes desesperado, a ânsia de grito, de gemido, do apelo, é as madrugadas perturbadas, a palavra de Caio num texto sem final feliz. O café que sempre está ralo, e o cigarro que acaba rápido. A culpa, você vê as feridas que ainda estão abertas e que talvez você mesma tenha escolhido isso, a dor que ainda lateja, mas dês de o principio soube que seria assim: difícil. Afinal nada é fácil, ainda mais se as arestas pelas quais se olha estiverem afiadas. E ai você se vira contra o mundo, o enxerga ainda mais podre, ainda mais medíocre, e hipócrita. Pior de tudo é quando se vê também assim. E se sente exausta, incapaz, já não passa de uma mulher que perdeu seu encanto dentro de si, e que se fechou e machucou. Alguém que encontra válvulas de escape nem sempre precisas. Mas alguém que se olhou no espelho hoje pela manhã, e que o reflexo perguntou se era triste. Talvez fosse, mas sabia que era mais um de meus personagens mortos. E a assim atriz, deixo o rosto se reinventar.